No curto prazo, mercado ainda acredita na força do consumo, mas espera novos investimentos para que o PIB volte a crescer
Por Janaina Langsdorff, do Grupo
Meio & Mensagem
Desde 2007, ano em que teve início o segundo mandato presidencial
de Luiz Inácio Lula da Silva, os índices de vendas do varejo, já historicamente
superiores, bateram com folgas o crescimento anual registrado pelo PIB do País.
Com mais dinheiro no bolso, o brasileiro passou a comprar marcas nunca antes
experimentadas. "O consumo cresceu a despeito da crise internacional. Mas
este cenário não se sustenta mais", afirma o professor Claudio Felisoni,
presidente do conselho do Programa de Administração do Varejo da Fundação
Instituto de Administração (Provar/FIA).
O sinal amarelo mudou para vermelho em 1º de
março, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
oficializou o avanço pífio de 0,9% do PIB no ano passado - o menor desde 2009,
quando houve retração de 0,3%.
Em 2013, a expectativa é de um avanço bem
menor do consumo, em torno de 4% - índice modesto mesmo quando comparado ao
5,9% de 2009, menor patamar registrado nos seis anos anteriores. Mas marcas de
setores alavancados pelo comportamento do consumidor ainda estão otimistas.
Sobretudo aquelas que enxergam na Copa das Confederações uma oportunidade de
alavancar vendas.
Na mira dessas empresas, ainda estão os
representantes da classe C, um contingente próximo de 104 milhões de pessoas
que respondem por mais da metade do consumo do País. “Nossa estratégia para o
próximo quinquênio é aprofundar os esforços em negócios sociais, com
iniciativas para promover a geração de oportunidades e renda para a população
brasileira”, projetou a Coca-Cola, em comunicado referente ao balanço
financeiro de 2012. A companhia é uma das patrocinadoras da Copa das
Confederações e do Mundial de 2014.
Outra marca que
aposta em resultados positivos neste ano, independentemente do “pibinho”, é a
Samsung. “Continuamos muito confiantes, apesar da economia não ter crescido
como se esperava nos últimos dois anos. Os produtos com os quais trabalhamos
ainda têm muita margem para aumentar a penetração”, revela Sílvio Stagni,
vice-presidente de marketing e vendas da empresa para o Brasil, quinto maior
mercado do mundo para a companhia sul-coreana. “Teremos a Copa das
Confederações neste ano e a Copa do Mundo no ano que vem, e os eventos
esportivos são muito importantes para o mercado de televisores – 70% do parque
instalado no País ainda é CRT (televisores de tubo). Há também o plano do
governo de levar todas as TVs para o sistema digital”, lista o executivo,
acrescentando que os smartphones ainda têm uma baixa penetração. “E a linha
branca sempre responde bem quando o governo promove os cortes no IPI (Imposto
sobre Produtos Industrializados). Em breve vamos entrar com novos produtos,
para classes mais baixas, nestas categorias”, antecipa Stagni.
A visão positiva da
Samsung é compartilhada pelo Grupo Dass, de calçados e artigos esportivos. “Os
investimentos para os eventos esportivos têm forte impacto em algumas categorias.
Além disso, há uma mudança de comportamento em curso: as pessoas estão
começando a se vestir de uma maneira mais casual. Isso contribui com os nossos
produtos, que passam a fazer parte não apenas dos momentos de lazer do
consumidor, mas de todo o seu dia”, diz Rodrigo Lacerda, vice-presidente do
Grupo Dass, que gerencia as marcas Fila, Umbro e Tyron no Brasil. “Também
estamos investindo em inteligência e inovação. Hoje, dificilmente um setor
consegue sucesso com uma estratégia global. É preciso buscar cada vez mais a
diferenciação por meio de canais e regionalização. As linguagens estão cada vez
mais específicas, e os públicos, segmentados. Entender isso é fundamental na
hora de definir as estratégias.”
É claro que o
mercado está em alerta. No curto prazo, a comunicação deverá viver um período
de aquecimento motivado exatamente pela Copa das Confederações. Mesmo assim,
entre as agências, o tom é de atenção às medidas de longo prazo que venham a
ser tomadas pelo governo. “É preciso ter certeza do crescimento no futuro”,
salienta Aurélio Lopes, presidente da Giovanni+DraftFCB e da rede na América
Latina.
Além disso, é
importante lembrar que a classe C está endividada e mais consciente. “É uma
população que tem emprego e aprendeu a comprar. Não o faz mais por ímpeto e sim
por necessidade”, defende Carlos Clur, presidente do Grupo Eletrolar,
organizador da Eletrolar Show, uma das maiores festas do setor.
A professora Celina
Ramalho, da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP),
explica que o consumo foi utilizado como base de crescimento a partir de 2008,
quando a explosão da crise das hipotecas imobiliárias americanas lançou
estilhaços mundo afora. Atingido, o governo brasileiro recorreu a uma política
econômica de juros mais baixos e redução do IPI. Com produção e empregos
preservados, a medida se mostrou um sucesso, vide a elevação de 7,5% do PIB em
2010. “As pessoas compram porque estão empregadas. Não existe propaganda que
obrigue a gastar. Se o brasileiro não tivesse condições de adquirir uma máquina
de lavar, a redução do IPI não teria surtido efeito”, conclui Carlos Clur, da
Eletrolar.
Apesar de reconhecer
o dinamismo do varejo, o economista da LCA Consultores, Fernando Sampaio,
adverte que o avanço dos investimentos, alavancado justamente pelo aumento da
renda e do crédito, foi até maior do que o próprio consumo, constituindo um
segundo motor de arranque. “O ano de 2012, porém, foi uma exceção. Assim como
em 2009, o investimento se retraiu, refletindo as incertezas sobre a economia
mundial. É fundamental que os investimentos voltem a mover a economia”,
constata. Segundo o IBGE, a taxa de investimento de 2012 foi de 18,1% do PIB,
inferior ao patamar verificado em 2011, que ficou em 19,3%.
“O Brasil precisa
agora de medidas nas áreas de tributos, além de infraestrutura”, sublinha Clur.
O respeito aos contratos e a garantia de estabilidade jurídica também são
fundamentais para não afugentar os investidores. “A reforma tributária estimula
a produção e melhora a competitividade. Já a redução do IPI é um paliativo”,
concorda Flávio Tayra, gerente de economia e pesquisa da Associação Brasileira
de Supermercados (Abras), setor que cresceu 5,3% no ano passado, mediante forte
influência da renda e do nível de emprego.
Mãos à obra
O governo de Dilma
Rousseff tem tomado diversas medidas de estímulo à retomada dos investimentos,
como a desvalorização do real frente ao dólar, a redução do custo das linhas de
crédito do BNDES e os incentivos aos projetos de infraestrutura. A diminuição
de custos – como a conta de eletricidade e a contribuição à previdência – a queda
da taxa básica de juros (a Selic, mantida em 7,25% ao ano pelo Comitê de Política
Monetária do Banco Central – Copom), cortes de impostos ao consumidor e a
diminuição dos encargos trabalhistas são outras providências anunciadas na
segunda metade de 2012, “que farão efeito em 2013, permitindo uma alta no PIB
próxima de 3,5%”, projeta Fernando Sampaio, do LCA.
A recuperação já
pode mesmo estar em curso. Em janeiro, a produção industrial brasileira
registrou a maior alta mensal dos últimos três anos, subindo 2,5% frente a
dezembro de 2012, segundo o IBGE. A expansão foi liderada pelos bens de
capital, o mais ligado aos investimentos, com acréscimo de 8,2% no mesmo
período, seguido pelos bens intermediários (0,9%). Os bens de consumo avançaram
1,2% com destaque para a categoria de itens duráveis (2,5%). Os produtos
semiduráveis e não duráveis tiveram ganho de 0,2%, reproduzindo a tendência de
crescimento identificada no quarto trimestre de 2012. Os indícios de melhoria
aumentam a esperança de recolocar o País numa verdadeira trajetória de
expansão.


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