segunda-feira, 11 de março de 2013

A Hora da Verdade


No curto prazo, mercado ainda acredita na força do consumo, mas espera novos investimentos para que o PIB volte a crescer

Por Janaina Langsdorff, do Grupo Meio & Mensagem


Desde 2007, ano em que teve início o segundo mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, os índices de vendas do varejo, já historicamente superiores, bateram com folgas o crescimento anual registrado pelo PIB do País. Com mais dinheiro no bolso, o brasileiro passou a comprar marcas nunca antes experimentadas. "O consumo cresceu a despeito da crise internacional. Mas este cenário não se sustenta mais", afirma o professor Claudio Felisoni, presidente do conselho do Programa de Administração do Varejo da Fundação Instituto de Administração (Provar/FIA).
     O sinal amarelo mudou para vermelho em 1º de março, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oficializou o avanço pífio de 0,9% do PIB no ano passado - o menor desde 2009, quando houve retração de 0,3%.
     Em 2013, a expectativa é de um avanço bem menor do consumo, em torno de 4% - índice modesto mesmo quando comparado ao 5,9% de 2009, menor patamar registrado nos seis anos anteriores. Mas marcas de setores alavancados pelo comportamento do consumidor ainda estão otimistas. Sobretudo aquelas que enxergam na Copa das Confederações uma oportunidade de alavancar vendas.
     Na mira dessas empresas, ainda estão os representantes da classe C, um contingente próximo de 104 milhões de pessoas que respondem por mais da metade do consumo do País. “Nossa estratégia para o próximo quinquênio é aprofundar os esforços em negócios sociais, com iniciativas para promover a geração de oportunidades e renda para a população brasileira”, projetou a Coca-Cola, em comunicado referente ao balanço financeiro de 2012. A companhia é uma das patrocinadoras da Copa das Confederações e do Mundial de 2014.
         Outra marca que aposta em resultados positivos neste ano, independentemente do “pibinho”, é a Samsung. “Continuamos muito confiantes, apesar da economia não ter crescido como se esperava nos últimos dois anos. Os produtos com os quais trabalhamos ainda têm muita margem para aumentar a penetração”, revela Sílvio Stagni, vice-presidente de marketing e vendas da empresa para o Brasil, quinto maior mercado do mundo para a companhia sul-coreana. “Teremos a Copa das Confederações neste ano e a Copa do Mundo no ano que vem, e os eventos esportivos são muito importantes para o mercado de televisores – 70% do parque instalado no País ainda é CRT (televisores de tubo). Há também o plano do governo de levar todas as TVs para o sistema digital”, lista o executivo, acrescentando que os smartphones ainda têm uma baixa penetração. “E a linha branca sempre responde bem quando o governo promove os cortes no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Em breve vamos entrar com novos produtos, para classes mais baixas, nestas categorias”, antecipa Stagni.
         A visão positiva da Samsung é compartilhada pelo Grupo Dass, de calçados e artigos esportivos. “Os investimentos para os eventos esportivos têm forte impacto em algumas categorias. Além disso, há uma mudança de comportamento em curso: as pessoas estão começando a se vestir de uma maneira mais casual. Isso contribui com os nossos produtos, que passam a fazer parte não apenas dos momentos de lazer do consumidor, mas de todo o seu dia”, diz Rodrigo Lacerda, vice-presidente do Grupo Dass, que gerencia as marcas Fila, Umbro e Tyron no Brasil. “Também estamos investindo em inteligência e inovação. Hoje, dificilmente um setor consegue sucesso com uma estratégia global. É preciso buscar cada vez mais a diferenciação por meio de canais e regionalização. As linguagens estão cada vez mais específicas, e os públicos, segmentados. Entender isso é fundamental na hora de definir as estratégias.”
         É claro que o mercado está em alerta. No curto prazo, a comunicação deverá viver um período de aquecimento motivado exatamente pela Copa das Confederações. Mesmo assim, entre as agências, o tom é de atenção às medidas de longo prazo que venham a ser tomadas pelo governo. “É preciso ter certeza do crescimento no futuro”, salienta Aurélio Lopes, presidente da Giovanni+DraftFCB e da rede na América Latina.
         Além disso, é importante lembrar que a classe C está endividada e mais consciente. “É uma população que tem emprego e aprendeu a comprar. Não o faz mais por ímpeto e sim por necessidade”, defende Carlos Clur, presidente do Grupo Eletrolar, organizador da Eletrolar Show, uma das maiores festas do setor.
         A professora Celina Ramalho, da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), explica que o consumo foi utilizado como base de crescimento a partir de 2008, quando a explosão da crise das hipotecas imobiliárias americanas lançou estilhaços mundo afora. Atingido, o governo brasileiro recorreu a uma política econômica de juros mais baixos e redução do IPI. Com produção e empregos preservados, a medida se mostrou um sucesso, vide a elevação de 7,5% do PIB em 2010. “As pessoas compram porque estão empregadas. Não existe propaganda que obrigue a gastar. Se o brasileiro não tivesse condições de adquirir uma máquina de lavar, a redução do IPI não teria surtido efeito”, conclui Carlos Clur, da Eletrolar.
         Apesar de reconhecer o dinamismo do varejo, o economista da LCA Consultores, Fernando Sampaio, adverte que o avanço dos investimentos, alavancado justamente pelo aumento da renda e do crédito, foi até maior do que o próprio consumo, constituindo um segundo motor de arranque. “O ano de 2012, porém, foi uma exceção. Assim como em 2009, o investimento se retraiu, refletindo as incertezas sobre a economia mundial. É fundamental que os investimentos voltem a mover a economia”, constata. Segundo o IBGE, a taxa de investimento de 2012 foi de 18,1% do PIB, inferior ao patamar verificado em 2011, que ficou em 19,3%.
         “O Brasil precisa agora de medidas nas áreas de tributos, além de infraestrutura”, sublinha Clur. O respeito aos contratos e a garantia de estabilidade jurídica também são fundamentais para não afugentar os investidores. “A reforma tributária estimula a produção e melhora a competitividade. Já a redução do IPI é um paliativo”, concorda Flávio Tayra, gerente de economia e pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), setor que cresceu 5,3% no ano passado, mediante forte influência da renda e do nível de emprego.

Mãos à obra
        
         O governo de Dilma Rousseff tem tomado diversas medidas de estímulo à retomada dos investimentos, como a desvalorização do real frente ao dólar, a redução do custo das linhas de crédito do BNDES e os incentivos aos projetos de infraestrutura. A diminuição de custos – como a conta de eletricidade e a contribuição à previdência – a queda da taxa básica de juros (a Selic, mantida em 7,25% ao ano pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central – Copom), cortes de impostos ao consumidor e a diminuição dos encargos trabalhistas são outras providências anunciadas na segunda metade de 2012, “que farão efeito em 2013, permitindo uma alta no PIB próxima de 3,5%”, projeta Fernando Sampaio, do LCA.
         A recuperação já pode mesmo estar em curso. Em janeiro, a produção industrial brasileira registrou a maior alta mensal dos últimos três anos, subindo 2,5% frente a dezembro de 2012, segundo o IBGE. A expansão foi liderada pelos bens de capital, o mais ligado aos investimentos, com acréscimo de 8,2% no mesmo período, seguido pelos bens intermediários (0,9%). Os bens de consumo avançaram 1,2% com destaque para a categoria de itens duráveis (2,5%). Os produtos semiduráveis e não duráveis tiveram ganho de 0,2%, reproduzindo a tendência de crescimento identificada no quarto trimestre de 2012. Os indícios de melhoria aumentam a esperança de recolocar o País numa verdadeira trajetória de expansão.

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